Onde limite é a virgula e não o ponto.


Entrega Rápida

24/03/2015 17:57

Entrega Rápida

Foi demais hoje lá na rua detrás. A tia veio de longe. Na contra mão da via. Vinha a 80, direto dos 70. ‘Bee Gees’ no toca fita, ‘Stayn Alive’. Pela altura, aposto que tinha um tojo amplificando os graves em um sub da Bravox. Meu camarada olha só que figurinha: lenço azul na cabeça, cabelo cenoura e chapinha. Para completar o figurino e abalar na pista da Overnight, ‘boca-loca’ marrom à extrapolar as curvas dos lábios.

Tia sem noção alguma de qualquer infração de trânsito ou bom senso. Era bala perdida, pronta para derrubar qualquer incauto que aparecesse pelo caminho. E claro, sempre tem um. O amigo do zorro apareceu no viés da via. No momento exato em que a cena precisava de um coadjuvante, materializei. Pois é, eu mesmo - o tonto - estava lá.

Reparei no lance todo. Notei que ela parecia mordida com algo. Gritava com alguém em um ‘Hiphone’ com capinha ‘Willycat’, à mascar raiva no chiclete ping-pong. O Minister sem filtro fumava no canto da boca. Tudo ao mesmo tempo agora. Quanta habilidade. Saquei logo a bizarrice da coroa - “Ministério da Saúde adverte, doida ao volante”.

O ‘golzinho’ quadrado, motor de geladeira, tremia. As bochechas rosadas em pó-de-arroz idem. E as laterais do carro? Nossa! Tinham massa à beça. Maquiadas iguais ao rosto, até o pescoço. O veículo, cor cocô metálico, idêntico ao primeiro que dirigi - bem antes do Collor, com 15 anos, já pilotava carroça melhor que ela.

O barulho da geladeira foi proporcional ao da fumaça. Esfumaçaram cigarro, carro e a raiva da tia. Nublando logo cedo, toda a domingueira.

O palco pronto para o imbróglio. Gelo seco na pista, 'Stayn Alive' no último. A tia avançou com o carro na moto. Eu desviei em direção a calçada. Os quatro pneus do golzinho pareciam gritar alto: “Sai daí motoboy!”. Quase bati, mas me safei. Subi com as duas rodas no meio fio - entortei a da frente. A ‘CG’ ficou pensa, igual à pipa do vovô. Ela parou mais a frente. A mão pisava com vontade na buzina. ‘Fómmm!’, “Putz! Que ‘véia’ maldita, onde será que ela arrumou essa marítima?”. Sem pensar já fui descendo o verbo: “Sua vaca!” “Quer me matar doida?”. ‘Ô Psiti’, nem adianta me recriminar. Queria ver se fosse com você. A boa educação nessas horas tira férias. Saquei logo um dedo médio bem ereto, para contrabalancear o lado da pipa que ficou pensa. Como dizem por ai, perdoar é divino, mas mandar pro inferno é sensacional!

Por um minuto achei que ela iria embora. Já estava virando as costas quando escutei Barry Gibbs dar a deixa... ‘Ah, ha, ha, ha, stayin' alive, stayin' alive’. Opa! ‘Perai caceta!’. A tia arranhou a ré bonito. O carro voltou ao melhor estilo ‘moonwalker’. Absurda mente da gente. De repente me lembrei dos embalos de sábado à noite e do John Travolta fazendo aqueles passinhos. Imagina Michael e Travolta dançando juntos? Seria demais.

Cai na real quando a tia parou ao meu lado. Meu Deus! A irmã mais velha da Cheer quer arrumar treta comigo. Abriu a janela me olhando com pouco caso. Ria, como se não fosse nada. Ria, ria como fosse ter virada... O botox evidente dava a face reboque um aspecto ‘playmobill’. Algo monstruoso, a mulher piscava com um só olho. Sinistro.

A tia acelerou a geladeira, virando o que não era aquela ‘Brastemp’ de frente para mim. Caraca, gelei! Será Cristine o carro assassino? Pisquei sem piscar. Não conseguia desviar os olhos do mono-olho dela. A testa da mulher de tão lisa franziu a minha.

Essa doida vai jogar o carro na calçada. Essa ‘gardenal’ vai me matar...

E a véia veio que veio avante!  Virei o rosto, fechei os olhos e estendi os braços espalmando as mãos. Torci o esfincter, “Para! Para! Para!”

Ela parou. Contudo, a centímetros dos meus joelhos trêmulos. Ufa...

Então, a tia foi para trás de novo. E para frente. E para trás. Nesse vai e vem, ‘Stayin' Alive’. Onde será que ela roubou a carteira de motorista?

A tia ‘gardenal’ me matou. Só de susto. No fim, só queria manobrar o carro para colocar na mão correta. Tentativa e erro que fez a rua inteira parar. Eu fiquei ali, impassível. Esperando o desfecho da manobra e da obra (obrada). Pouco antes de ir embora, ela ainda olhou bem para mim com aquele olho solteiro. Deu uma risadinha ‘do mal’ e fez aquele tradicional sinal com as mãos. Ok.

Ok? Jamais saberei se o aceno foi em língua estrangeira, ou português. 

 

Maurício de Carvalho Gervazoni

Imagem: Google Images

Mais: https://www.sem-fronteiras.net/news/dois-mil-e-quatorze-agradecimentos/

 

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