Onde limite é a virgula e não o ponto.


Reminiscências

23/01/2014 08:18

 

“Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos.”

                                                                                                                                                                        Victor Hugo

 

No dorme e acorda de cada um a rotina adormece a alma. O homem limitado a seus afazeres e prazeres, peregrina em nuvens passageiras. Anos passados sem nenhuma ocorrência. Provável será que nesta cadência perfeita um coração adoeça. Mas não te preocupes. Esta decadência não acontecerá contigo.

A memória do que está por vir sempre foi tua. Irá salvar-te do conforto da nuvem que te leva. Elevando-te. Na cachoeira amorar, a água gelada está a tua espera. Para lavar-te a alma. Despertando a vida para algum outro significado. Gerando-te futura lembrança. Uma vívida relembrança.

Esta relevância está escondida. No vento. Nas esquinas do tempo. Atrás do muro. À espreita. Atada dentro de nós. Eflúvios divinos.

A ti, basta aceitar a sina da essência. Que repousa em tua biografia.

O que são as memórias? Quiçá resquícios dos encontros mais solenes com o tempo...

Naquele singular momento. Num piscar de olhos. O preto e branco fenecem em arco-íris.

Para voar a borboleta. Morre-se o casulo!

Naquele átimo de instante. Nada mudou. Mas sentimos que tudo está diferente.

Para que ecloda o alevino. Parte-se a casca!

Naquela pulsação acelerada. Onde minutos são segundos. O primordial se revela. A câmera é lenta.

Na boca o coração vem à tona.

Em ondas...

O braço quebrado.

A briga na escola.

A queda da bicicleta.

O melhor amigo rindo.

O correio elegante.

O presente de Natal...

O medo quando nos perdemos dos pais.

Ondas... que rondam...

Quando nosso pai pára o carro. Passa para o lado do passageiro e diz:

- Quer aprender a dirigir, filho?

Quando nos deparamos com o mar... pela primeira vez...

Quando a menina que sonhamos por toda uma noite. Permite um beijo. Raiando nosso dia. Mesmo que no dia chova!

Quando escrevemos... a primeira carta de amor. Quando recebemos uma.

Quando nos levaram ao cinema... o primeiro filme...

A primeira transa.                  

O primeiro carro.

O primeiro salário.

O primeiro porre.

O primeiro show de rock.

O nome na lista de aprovados.

O primeiro amor.

Ondas... que rondam...

Quando dormimos juntos. Velando o sono. No amanhecer. Vemos as pálpebras acordarem. Olhos apaixonados caminham até os nossos.

Quando no púlpito. Aguardamos o compromisso da noiva. Um caminhar ritmado. Pautado pela marcha da esperança...

Quando sabemos que estamos grávidos...

Quando escutamos o choro do filho que nasce. E o seguramos pela primeira vez. Acariciamos um anjo. Em lágrimas...

Quando escutamos: “Papai”! E nos damos conta de que somos nós...

Quando nascem os primeiros fios brancos. Próximos à maturidade. Esta uma conquista que gostaríamos de protelar...

Quando revemos um grande amigo. Após vinte anos. E nos parecem vinte segundos. Entre a partida e a chegada. Vinte segundos até que se vá novamente...

O último dia com ela e o primeiro...

O último suspiro de um ente querido...

A última palavra... que não deveria ter sido dita...

E todas as palavras... que não dissemos...

A grande vitória. A maior derrota.

Todas as chegadas desencontradas do tempo. Anunciadas despedidas da vida.

Sim! Falecemos ao respirar o ar das recordações...

E quando nos formos... O que serão de nossas reminiscências?

Daquela lembrança de que estavas lá. Quando precisei de ti.

Daquela lembrança de viagem. Quando rimos e rimos... tanto!

Daquela lembrança dos teus olhos. Quando finalmente... eu disse “te amo”!

E pensar que podias ter me deixado ir. Mas não...

E sentir que ainda éramos jovens. Mas não...

E querer que o tempo fosse ilusão. Mas não...

Perceber que tudo um dia foi acaso. Mas não...

De caso pensado, foi destino...

Nosso reles quinhão de existência...  

E que estes e outros desatinos que temos. São orações eternas. Que já foram escritas... um dia...

Talvez por mim... Quem sabe por ti...

Com certeza por todos nós...

Aquele singular momento. Em que tudo muda. E o mundo passa a ser outro porvir...

 

Texto: Maurício de Carvalho Gervazoni

Leia mais: http://www.sem-fronteiras.net/news/reencontro/
 

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